janeiro 27, 2016

Página 1

Em branco. A página me fitou, e eu segurei seu olhar sem medo. Sorrimos uma para a outra e, de repente, parecia que a coisa iria fluir. E travamos. Não era um amor feito para durar. Tão intenso quanto os amores de metrô, nos despedimos com um sonho que continuou como no começo: em branco.

fevereiro 10, 2015

Querido amor, pt. II

            Acho que estou crescendo. Não consigo deixar de pensar que sim, afinal, tudo tem andado tão conturbado... Por vezes me pego refazendo meus passos, buscando meus erros e, acredite, eu os encontro. Não consigo deixar de pensar que é graças a você que sou capaz de não repeti-los agora. Graças a você muita coisa aconteceu... Finalmente estou me encontrando, melhorando a cada nova decisão. Sei que jamais saberá disso, mas os erros que cometi contigo, jamais irão se repetir. Porque agora eu os entendo. Eu agora me entendo. 
            Não que isso valha de muita coisa... Mas eu queria que soubesse o quão importante foi seu papel no meu amadurecimento. Escolhas que eu demoraria dez, doze anos pra tomar, estão acontecendo agora. E eu não me arrependo de nada... Nada exceto não ter aprendido mais com você. Posso não ter me tornado mais esperta, mas sou, com certeza, mais crítica e mais dedicada, sou mais amiga, mais dona de mim e do meu corpo. Pela primeira vez, eu sinto que estou nos meus pés, e, Deus!, essa sensação é maravilhosa. 
            Aprender a controlar meus sentimentos talvez tenha sido sua maior contribuição para minha vida. E acho que nunca vou encontrar palavras suficientes para agradecer a você por isso. Você me encontrou uma menina, e me obrigou a ser mulher. Ainda que às vezes eu negligencie esse fato, ele é verdade. Eu sou muito maior hoje do que jamais sonhei. 
            Talvez haja um pouquinho de ironia, um gole de vodca, todo o desejo sexual do mundo... Você deixou uma maço de cigarro na mesinha de centro, mas nele não consigo mexer. Talvez sim, talvez não. A verdade é que sinto a sua falta. 
            Obrigada por tudo. 

J. 

novembro 25, 2014

fevereiro 04, 2014

É tudo uma questão de prefixo.

O barulho das sirenes era impossível. Eram carros de polícia, bombeiros, médicos e para médicos em seus coletes laranjas corriam para acudir a vítima. Havia sangue por todo o lado, e o olhar de desespero dos transeuntes revelava o que aquele mar vermelho escrevia: as chances de sobrevivência eram ínfimas. Do meio do burburinho, era possível ouvir além de suspiros e lamentos, perguntas aparentemente sem resposta. “O que será que houve?”, diziam os que acabavam de passar. “O que pode ter motivado o pobrezinho a fazer um absurdo desses?” indagavam mais para Deus, do que uns para os outros, os que haviam assistido tudo desde o começo.

Alguns metros na vertical, numa das janelas do terceiro andar do velho prédio que sombreava a avenida, olhava para o corpo inerte no asfalto uma menina. Ela era a única que poderia dizer o que verdadeiramente havia acontecido ali, mas ninguém prestava atenção em seus olhos curiosos. Os olhos eram vazios, insensíveis, sem emoção alguma. Aparentemente. Se alguém olhasse mais de perto, se alguém se colocasse ao lado dela, descobriria olhos marejados, mãos trêmulas e dentes cerrados. Estava na verdade em choque, como quem perde a coisa mais importante da vida num único momento de descuido.

Tinha olhos tão escuros quanto o cabelo, que caía bagunçado quase até a cintura. Era apenas um emaranhado de cabelo e perda, aquela menina. Se o tal alguém que numa situação hipotética se colocou ao lado dela, insistisse em perguntar-lhe o que havia acontecido, a menina-da-vida-bagunçada teria dito, numa voz baixinha, tão assustada quanto o olhar: “Eu vi. Eu senti”. Ela teria contentado-se em dizer apenas isso. Mas nesse ponto, o interlocutor demonstra uma curiosidade quase irrefreada. Sem pensar muito, dispara: “Você viu quando o pobrezinho pulou?”!

E aí, seria tarde demais. Ela fugiria pela janela, bem como o nosso morto do início da história. Ninguém gosta de ser colocado contra a parede. A menina fugiria pela janela, estabacaria-se no asfalto, fraturaria dez ossos difíceis de consertar e daí já não seria mais a história do “que se suicidou”, mas “da menina que fugiu”. Felizmente ou não, não é do nosso interesse, de nenhum de nós três, mudar o título dessa história.

Graças a Deus, nosso interlocutor é um bom moço e apenas observou a menina. Ele a avaliou em seu silêncio cheio de reticências. Tentou compreender o que causava aquele estranho nó em seus cabelos, mas não só neles. Havia nós por todo lugar. Na cabeça, nos olhos, na garganta e também no coração. Tantos nós deixavam-na com mãos e pés atados. Seria assim, nesse panorama emaranhado, que ela se pronunciaria.

“Entrou um homem. Ele e o Coração eram amigos. Ele dizia cuidar e amar do Coração, você sabe? Juntos, eles foram subindo, subindo e subindo! E o Coração estava tão feliz! Você precisava ver, pra entender. Ele sentia-se nas alturas! Verdadeiramente estava. Ele era o Coração mais feliz do mundo, o meu… Então, hoje descobrimos juntos que o tal rapaz traía meu Coração. Numa tentativa de roubá-lo de mim, deixou-o cair. Lá do alto. Do último andar. Da maior felicidade do mundo. Meu Coração caiu. E agora está em tantos pedacinhos, que nem todo o Super Bonder do mundo pode colocar no lugar. Foi isso o que aconteceu. Não foi suicídio, seu moço. Foi homicídio. Homicídio doloso qualificado”.

agosto 07, 2013

"Coisas que acabam"

                Se chamava Carolina, mas não gostava do apelido “Carol”. Gostava de usar all star vermelho e desenhar o símbolo do infinito, infinitas vezes até perder o rumo da mão. Aliás, ela gostava de perder o rumo de tudo, gostava de perder o fio da meada do livro, da música, da receita de pudim de leite condensado e do estudo matinal obrigatório.
            Naquele dia em especial, os desenhos infinitos do infinito não a deixaram cansada o suficiente. Arrumou-se na cadeira, mas não ficou confortável o suficiente. Arrumou-se de novo por mais duas vezes, e só sossegou quando cruzou ambas as pernas para cima do assento. Estalou todos os dez dedos das mãos e prendeu o cabelo curto num rabo desarrumado. Estava só de camisola e, céus! ela adorava ficar só de camisola o dia inteiro!
            Precisou de um tempo para pensar no que queria fazer com aquela folha em branco na sua frente. Desenhar mais infinitos não estava no roteiro, então quebrou a cabeça até não conseguir pensar em mais nada. Suas ideias haviam acabado.
            Foi então, que pensou num ótimo tema para a folha em branco. Molhou a ponta da caneta na língua (não que precisasse, era só uma mania enjoada), e escreveu bem retinho sobre a folha vertical. “Coisas que acabam”. Carolina odiava folhas deitadas na horizontal.
            Pensou um minuto e anotou o primeiro item da lista: 1- Boas ideias.
            Avaliou a própria letra e umedeceu os lábios, virando o rosto em seguida e avaliando o cômodo vazio, como se buscasse inspiração para o próximo item. E conseguiu! 2- Pudim.
            Escreveu então, a numeração para mais oito itens, somando dez em sua lista. Depois de terminar o desenho dos números, escreveu mais um, 3- Paciência. E logo em seguida, mais outro: Música. E mais outro, e mais outro e mais outro!
            Livros, vida, grama (?) e grana!
            Mas quando escreveu sobre a grana, lembrou-se que tinha aquela gelatina de limão na geladeira. Carolina adorava gelatina de limão, por isso, abandonou a lista como quem abandona um grande amor inventado. Mentalmente, adicionou à lista de coisas que acabam o amor. Sem se preocupar com o último item, deslizou para perto da geladeira e, sozinha, comeu dois potinhos da gelatina de limão.

            Sozinha. 

julho 29, 2013

Doença

Quero que vás embora, que batas com força a porta e que enfrentes a tempestade e o frio sozinho. Eu quero que tu apanhes do vento, que desencontre-te dentro de ti mesmo e que, no fim, aches que a minha confusão foi a coisa mais linda que já lhe aconteceu. Quero que grites, que contorças. Quero que te arrependas e enlouqueças por ter mentido. Eu quero que tu te partas em dois, em três... Em mil pedaços e, depois, peças ajuda para colocar-te no lugar. E aqui de longe, aqui, no meu pedestal, lembrar-te-ei de quem realmente sou.  Sem vergonha ou segundas intenções, eu esfregarei na tua linda cara quem sou. E as minhas cicatrizes. E os meus medos. E os meus erros. Talvez te recorde de forma dolorosa os teus erros, também.
E então, quando ambos formos uma massa compacta e irreconhecível de dor, puxar-te-ei pra junto de mim. Dançaremos no nosso próprio sangue e na nossa própria vergonha. Coroar-te-ei com meu coração novamente. E, novamente, irás comer da minha carne, afundar nas minhas entranhas, fazer-me contorcer e suplicar de dor. Assim, num gemido sofrido de quem ama, hei de pedir por mais. Hei de pedir que me ame de novo, e de novo! Pedirei para que me rasgue, estrague e destrua novamente.

Porque amar-te é assim, destrutivo e venenoso, cancerígeno e doentio. E a verdade é que amo morrer de amores por você. E que morreria quantas vezes fosse necessário, só para voltar aos seus braços no fim de cada ciclo. 

junho 28, 2013

Esperança

Com um suspiro, reconheceu o sentimento. Levou a mão ao peito, arrastou as unhas pela pele enquanto fechava o punho e apertava-o contra a pele. Estava quente. Já não sentia o músculo há muito tempo. No entanto, naquele momento, ele pulsou! Como mágica, o órgão criou vida novamente, fazendo o sangue circular, aquecendo o corpo em pontos já esquecidos. E batia descontrolado, descompassado, desorientado de uma dor que era gostosa de sentir!
Fechou os olhos, os lábios se entreabriram num gemido que não sei dizer se era de desconforto ou de prazer. Uniu as sobrancelhas e deixou o sentimento fluir, aliviando um pouco o aperto no peito, mas levando a agonia para todas as partes do corpo. Um milhão de dúvidas percorrendo tranquilamente seu sistema circular. Mas novamente, como mágica, tudo foi esquecido! Houve luz. Tudo fez sentido, porque – devido a alguma força maior – houve amor.
O corpo queimava e ardia conforme o sangue apaixonado percorria as veias e artérias. Lágrimas verteram. Não havia mais volta. Não havia erro ou engano. O Coração havia escolhido.
Os lábios se apertaram numa linha fina, os olhos se espremeram com a luz. E nada mais no mundo foi importante, porque eram os olhos amados que tinha em seu campo de visão. E já não era preciso sentido nenhum no mundo para que entendesse. Para que ambos entendessem.
Que estava escrito. Numa árvore, numa pedra, na parede de uma caverna - nas estrelas, quem sabe? Não importa onde, estava escrito.
Estava escrito e pulsava com tanta força, que doía. Doía e pedia por contato, por braços e abraços e calor. Não havia mais frio, afinal. Havia apenas a certeza de algo que cresce, que brota mesmo sem dever. Algo que não é amarrado a limites ou a paixões tolas.
Algo avassalador! Que não tem barreiras e nem medos, que tem vontade própria e que não aceita cabrestos ou conselhos. Algo que queima, que cria, que faz viver e faz querer viver. Que torna tudo bonito e tudo nosso. Que traz o céu pra palma de nossas mãos. E que não tira o que trouxe, jamais.
Entregou-se, o corpo tremendo no ritmo que o Coração ditava. Estendeu uma das mãos na direção que julgava certa e deixou-se guiar, deixou-se perder, deixou-se levar para qualquer que fosse o lugar. Cega pelo sentimento mais lindo do mundo, não se deixou sufocar pelo medo, teve esperança de que aqueles olhos tão amados estivessem bem a frente, apenas esperando ela se aproximar mais um pouco para tomar sua mão e exigir o que era seu por direito.

Com uma esperança que só é digna dos apaixonados, reza. E espera. Reza mesmo com toda a incerteza que lhe sufoca vez ou outra. E reza: reza para que não seja tudo dor, para que haja um final feliz. Reza para que seja este o seu final feliz.