outubro 03, 2012

Mártir



                Eu já morri tantas vezes... Tantas vezes que você se assustaria caso eu lhe contasse. Você duvidaria, meu amigo. Perdi o sono por cem dias. E por cem vezes, perdi-me de mim mesmo. Já jejuei por mil anos. E por mil anos, encontrei-me comigo mesmo a cada novo amanhecer.
            Quando tudo foi escuro, dentro de mim encontrei forças para levantar. E, ainda assim, me derrubaram novamente. Feriram-me por quinhentas vezes. Quinhentas chibatadas em meu couro negro. E ainda assim, me reergui. Ainda assim, criei forças para não gritar e não sucumbir.
            Por uma longa eternidade, pediram-me perdão. E ainda pedem. E com o coração voltado para o céu eu digo que os perdoo. Mas meu corpo talvez não...
            Quando tive de sorver para dentro de mim todo o medo e a insegurança, quase explodi. Mas de algum lugar surgiram forças, tornando-me elástico, capaz de absorver e absorver. E quando houve fogo em cada pedaço de minha carne, eu fui gelo. Implacável, inquebrável em meus mil metros.
            E quando insistiram em devastar-me, em privar-me de mim mesmo, eu gritei. Lutei com todas as minhas forças e me encontrei com alguém muito parecido comigo virando uma esquina qualquer, de um beco qualquer do meu coração.
            Houve apenas um som. Um tiro ecoando pela caixa torácica, pelo crânio e pela alma. E ali, encontrei a morte mais uma vez.
            Eu já menti tantas vezes... E a cada mentira era um prego cravado em minha língua.
            “– Pai! Por que me abandonastes?” – Eu não cansava de me perguntar. E ainda me pergunto, senhora.
            Quando quiseram prender-me entre espinhos e algemas, eu revidei. Eu aplaquei. Eu sufoquei cada um de vocês. Eu me libertei, senhores!
            –  Ouçam! Quando o Inverno vier, corram! Corram por suas vidas, camaradas! E corram por si mesmos! Arranquem os olhos de seus algozes! Privem-nos da vida que querem privar de vocês!
            E incontáveis vezes perdi as palavras. Ou não ouvi as palavras. Ou não pensei nas palavras. Não as absorvi e não me apaixonei por elas.
            Sou como essas palavras: Eu já morri incontáveis vezes. 

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